Porque este dia é luz de outono, povoado de movimento, dança de folhas e pessoas que se confundem. Que, se você reparar bem, às vezes, são felizes.
Ela anda pelo parque, ele na lembrança. Na sua boca, o gosto de ameixa, que ele tem.
Porque um dia é movimento e vida toda, solidão e todo mundo. Pode ser percorrido inteiro, ou em pedaços, passo a passo. Deliciosamente mastigado, nunca engolido inteiro.
- Será amor? - ela pensa. - Mas amar, o que é isso? Gostar de ameixa é amar?
Porque um único dia é sol e lua, dois lados, mas um só. Silêncio e vozes, muitas, todas formando os tempos que, para entendermos, temos que dividir em horas e suas lapidações.
- Mas que assim o seja, que assim aconteça, que em dois se faça o sabor, de olhos revirados, palavras mordiscadas, arrepios, sensações eletrizantes, línguas no ouvido, beijos na nuca estonteantes.
Porque caminhar com ele-nela, neste dia, é vida inteira em compassos de doce (en)canto, é andar sob árvores que deixam escapar, entre as folhas, pedacinhos quentes do sol.
Porque um dia, qualquer dia, é luz de outono, fugaz vida inteira.
Fugaz vida que, em si, traz dois olhos que um dia se fecharão. O inverno chegará e eles dormirão.
Ah, que seja o hoje, então, de sabor fundamental: tropeçar, pelo resto do dia, no brilho do outro olhar.